domingo, 11 de dezembro de 2011

Bolo de banana: mais uma obsessão


Ops, quando lembrei da foto, já havia comido um pedaço

Depois de encontrada a receita do Tiramisù perfeito, o desafio dos últimos meses foi encontrar uma receita de bolo de banana que me agradasse plenamente. Vivo comprando cachos imensos de banana e algumas delas às vezes se perdem.

Além disso, sou chata e adoro bolo de banana. Então eu tinha lá meus pré-requisitos para tal iguaria: 1) tinha que ter banana na massa, porque só pão-de-ló com banana em cima não seria "bolo de banana"; 2) tinha que ser minimamente saudável, ou seja, conter ao menos um pouco de fibra além da farinha de trigo tradicional; 3) tinha que ter açúcar mascavo, porque bolo branco de banana não convida aos olhos tanto quanto um bolo escurinho; 4) tinha que ter banana em cima também, em tiras finas; 5) tinha que ser simples e rápida, pois vamos combinar que não se trata de nenhuma perna de carneiro à Napoleão, mas de um singelo... bolo de banana, né?

Este ano tentei algumas receitas diferentes, buscando atender às exigências já descritas. Uma delas até postei no blog, mais pelo bonito aspecto e pelo agradável perfume que soltou em casa, do que pelo sabor efetivamente. A massa poderia ter ficado mais leve e o caramelo no qual a "banana de cima" estava imersa queimou um pouco.

Nascida no mês de setembro, não fiquei contente até chegar ao que seria meu bolo de banana ideal. Contrariando as tendências e hábitos, neste domingo acordei cedo e, qual não foi minha surpresa, com vontade de fazer bolo. Algumas bananas bem maduras, que se perderiam rapidamente se eu não as comesse, me deram a ideia.

Misturei aqui, mudei uns ingredientes ali e acho que consegui fechar o ano de 2011 com mais uma receita testada e aprovadíssima com o selo virginiano da qualidade. O bolo de banana fofíssimo, suave, com bananas na massa e no topo, escurinho e tudo, saiu e transformou o café da manhã. Esta receita é realmente original da minha cozinha pequenina. Felicidade plena!

Ingredientes:

1 1/2 xícara (chá) de farinha de trigo
1/2 xícara de aveia em flocos
1 xícara (chá) de açúcar refinado
1 xícara (chá) de açúcar mascavo
1 colher (sopa) de fermento em pó
3 ovos
4 ou 5 bananas tipo prata, médias e maduras
1/4 xícara (chá) de óleo de soja ou azeite de oliva
1/4 xícara de leite desnatado
Canela e açúcar para polvilhar

Pré-aqueça o forno a 180 graus. Separe as claras das gemas dos ovos e bata até formar picos de neve. Corte duas bananas em lâminas finas. Polvilhe açúcar refinado em duas formas fundas de cake (aquela retangular alta, que serve para pães também) e deite as lâminas de bananas sobre o açúcar. Reserve as claras em neve e as formas.

No liquidificador, misture as gemas, o óleo, o leite, o açúcar mascavo e três
bananas. Bata bem até virar um creme. Adicione com uma espátula as claras em neve neste creme. Incorpore a farinha, a aveia, o açúcar refinado e o fermento (melhor ainda se passados antes numa peneira), cuidando sempre para a massa ficar homogênea. Divida a mistura nas duas formas e leve ao forno por 30 minutos. Após desenformar, polvilhe açúcar com canela por cima do bolo pronto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Ingredientes que fazem toda a diferença

Na última semana, tive vontade de fazer pratos leves, rápidos e variados, mas com um toque de originalidade. Alguns ingredientes que, por sorte, tinha em casa, trouxeram este sabor diferente que eu queria: damasco seco e pistache, que trouxe da Turquia, um biscoitinho tipo cracker, finíssimo, com gergelim, azeitonas pretas e suculentas da Grécia e o bom e velho queijo Minas frescal. Sim, pensei, bons ingredientes fazem toda a diferença e não é difícil ter um ou dois deles à mão para transformar pratos simples.

Para dois, preparei um aperitivo com os crackers, queijo cottage, pedacinhos de damasco e um toque de tomilho e mel. Para variar, fiz alguns também com cottage e lascas de azeitona grega. Sem mistérios, mas tão saboroso que deu vontade de comer só aquilo no jantar.

Como entrada, uma salada de folhas de rúcula com pistache e molho de mostarda e mel. Particularmente, prefiro saladas de folhas variadas, mas esta ficou muito boa como uma pequena entrada. Para o molho, misturei mostarda, mel, um pouco de azeite de oliva e algumas folhas de alecrim. As sementes de pistache tostado, esta iguaria utilizada há pelo menos 9.000 anos, dão um toque de leveza e um sabor exótico a qualquer prato.

Aliás, desenvolvi uma instantânea obsessão por pistache na Turquia. Sua história é muito bonita e cercada de mistério, luxo e muitas lendas milenares em seus locais de origem: Síria, Turquia, Grécia e até no Egito, onde, diz a história, era utilizado como componente de um perfume pelos faraós.

O prato principal foi um risottinho de tomate seco, queijo frescal e manjericão, curinga para as noites de cansaço que pedem um prato quentinho e fácil. Aqui no blog já existem várias receitas de risotto. A base é a mesma, basta mudar os últimos ingredientes que "personalizam" o prato, no caso estes três últimos que citei acima. A sobremesa ficou para outro dia, porque afinal era um dia de semana de muito cansaço, preguiça e regime...


Aperitivos de queijo cottage com Damasco, perfeitos com uma boa cerveja de trigo gelada


Salada de rúcula com pistache, aperitivo de luxo dos sultões otomanos


Risotto de tomate seco com queijo Minas frescal - na minha opinião, o melhor substituto brasileiro para a verdadeira ricota italiana

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Horas lindas em Istambul

Fui a Istambul recentemente a trabalho, um sonho antigo que veio em uma ocasião inesperada. A rotina lá foi intensa, mas consegui passar pouquinho tempo imersa na atmosfera real de Istambul, ou seja: fora do hotel onde realizamos um determinado evento.

Em poucas horas espaçadas, senti os ares antigos, loucos e misturados desta grande metrópole que está metade na Ásia, metade na Europa, e que não podia estar em melhor posição geográfica. E constatei: é preciso voltar com muito mais tempo. E seria preciso também voltar no tempo, se fosse possível tal experiência, à qual a cidade de Istambul convida permanentemente.


Istambul, um mix permanente de todas as suas histórias


Istambul já foi cidade grega-dórica, capital do império romano sob Constantino, do Império Bizantino e do Império Otomano, sob o comando de nada menos do que 31 sultões diferentes. Bizâncio, Nova Roma, Constantinopla ou Istambul, esta cidade iluminada pelo azul do Bósforo e de um horizonte recortado ora por edifícios modernos, ora por domos e minaretes, é talvez a mais bonita que já constou no meu diário de viagens.


O Bósforo sob a luz da manhã e os recortes loucos de Istambul


Hospedei-me no Conrad Istanbul, que fica no lado europeu da cidade, onde se proliferam galerias, restaurantes, shoppings, faculdades e automóveis que resultam em um trânsito verdadeiramente caótico. No primeiro dia, no próprio hall do hotel, tomei um chá turco forte e saboroso, para espantar o sono das muitas horas de voo até lá.



Chá turco quentinho e animador para o início da noite

A poucos minutos do hotel, adentrando o continente europeu, está a praça Taksim, no moderno bairro de Beyoglu. A Taksim se abre na ampla avenida İstiklal, restrita a pedestres, com um comércio muito variado e sofisticado.

Levados por um amigo que já conhecia a cidade, entramos no número 163, um pequeno prédio escuro, do século XIX, já desgastado e quase invisível em meio a tantas vitrines chamativas. Subimos de elevador até o sexto andar e subimos mais dois andares de escada - não sabemos porquê, o velho elevador não vai até o oitavo. O estranho percurso nos levou até o restaurante 360, um dos mais comentados na cidade, por sua vista de tirar o fôlego e por sua culinária ousada. Neste dia, tivemos sorte com a vista e o vinho turco, do qual provamos tinto e branco, ambos secos, de surpreendentemente boa qualidade.


A espetacular vista noturna do restaurante 360, que também vira balada lá pelas tantas

No sentido oposto, à direita do hotel Conrad, uma ponte leva ao lado asiático, onde estão a cidade antiga, o bairro de Sultanahmet, com a Mesquita Azul, a Igreja de Santa Sofia, a Cisterna Substerrânea, o Grand Bazaar e o Mercado de Especiarias (aos quais, infelizmente, não pude ir - nota mental para a próxima viagem), o Palácio de Topkapi e muitas escavações arqueológicas. Passamos rapidamente pela maioria destes pontos turísticos, todos belíssimos, mas só foi possível entrar para conhecer demoradamente a mesquita e o museu que já foi igreja e mesquita.


Aya Sofya, uma enciclopédia da história das religiões e da política daquela região


Na Mesquita Azul, única da cidade com seis minaretes, os visitantes devem tirar os sapatos e, no caso das mulheres, cobrir a cabeça para entrar. Lá dentro, um infinito carpete vermelho contrasta com os milhões de detalhes dos mais variados tons de azul, em toda a imensidão de suas reentrâncias e de sua grande cúpula. Mesmo com o zumbido da horda de turistas, a mesquita do Sultão Ahmed, que tem pouco mais do que a idade do Brasil, abriga uma atmosfera de paz e de contemplação.


A Mesquita Azul e seus lindos contrastes

Mais adiante, o Corno de Ouro, como é chamada uma península que forma um porto natural, abriga a Torre de Gálata, uma medieval e solitária torre que se vê de quase toda a cidade. Bela.

No domingo à tarde, o largo que se estende entre Aya Sofya e a Mesquita Azul é tomada por famílias, casais, turistas e vendedores de todos os tipos de produtos. Um dos mais interessantes é o suco de romãs, o "Viagra Turco", segundo propaganda (suspeita) de um vendedor empenhado em fazer lucro. Que a bebida é forte, isto o é...


"Turkish Viagra, five lira!" Que assalto, seu moço.


Isto tem um nome, mas eu realmente não sei pronunciar e tampouco escrever. São como panquecas salgadas


Milho e castanhas na brasa perfumam os ares de domingo


As famosas tramas turcas, em pashminas e lenços de todos os tamanhos, tem bom preço e lindas estampas também, entre as vendedoras de rua do local.


Comprei um, a oito liras turcas, uma pechincha


Mas o domingo se foi, com o sol, as vozes dos vendedores e os cânticos das mesquitas que ressoam convidando às orações. O último taxista foi gentil e honesto e nos levou sem dar voltas ao hotel, enquanto eu e minha companheira de "tour" desabávamos, exaustas, no limpíssimo banco de trás de seu veículo. Passei ainda por algumas lojas, restaurantes e no fim da noite até consegui sair de novo, antes de deixar Istambul tendo aprendido a dizer "teşekkür" e pensando em quando seria possível voltar.

sábado, 16 de julho de 2011

Se a vida lhe dá uma banana....



Este não é um blog estilo "diário", e isto ficou decidido desde o primeiro post que, se não me engano, foi sobre um bolo de maçãs. Porém, tanto o ato de escrever quanto o de cozinhar não podem deixar de estar impregnados do espírito daquele que escreve. Ou cozinha.

Por isso acho mais prudente não cozinhar se não estou bem. Eu não acredito em tantas coisas, mas - segredo revelado - temo que maus fluidos passem à comida e deixem de baixo astral qualquer desavisado que venha a provar daquela iguaria. Sempre me lembro daquele livro da Laura Esquivel (que originou o filme homônimo, ambos esplêndidos), "Como Água para Chocolate". As lágrimas de cebola inundando a casa. As codornas com pétalas de rosas que, quando preparadas pela protagonista Tita, transmitiam àqueles que comessem a paixão ou a tristeza avassaladoras da heroína.

Para escrever, então, nem é preciso explicar muito. Muitos autores já creditaram seu talento à sua depressão. Eu vejo esta "justificativa" com olhos um pouco suspeitos. Da minha parte, não posso, em absoluto, reler qualquer coisa que escreva durante uma crise de tristeza, sem achar tudo aquilo um grande porre melancólico e adolescente meia hora depois.

Foram algumas semanas - tem sido algumas semanas - de muito trabalho e uma tensão sem precedentes. Sempre me entristeço imensamente ao ter de abrir mão do meu tempo, dos poucos rituais que tornam nossa rotina mais humana. E isto teima em acontecer neste mundo do século XXI. Não cozinho, portanto, desta forma, e não escrevo tampouco, porque tudo que pode resultar disto são resmungos sem importância e comidas mal feitas, ou sem o tempero adequado, como me saiu um peixe, coitado, que cismei em fazer uma semana atrás.

Mas hoje me sinto bem. E pensei em celebrar o sábado à tarde, ensolarado e friozinho, com um bolo de banana caramelado, escuro e fofo, que perfumasse a casa. E que fosse rápido, porque o tempo livre continua sendo pequenininho.

Esta receita eu adaptei daqui.

Bolo de banana caramelado

Cobertura:
1 xícara de açúcar para o caramelo
3 bananas nanicas grandes, em rodelas de 0,5cm de espessura, bem maduras

Massa:
3 ovos
1/2 xícara [120ml] de leite
1 colher de extrato de baunilha
1 xícara [180g] de açúcar mascavo, se quiser mais escurinho
2 colheres de sopa de manteiga
1 e 1/2 xícaras [180g] de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó

Leve o açúcar ao fogo até caramelizar (derreter, fica liso e dourado - cuidado para não escurecer!). Com a ajuda de uma colher, despeje em uma fôrma de 20cm de diâmetro (ou duas retangulares de cerca de 10x15cm) e espalhe bem no fundo e nos lados. Distribua as rodelas de banana no fundo, bem próximas uma às outras.

Coloque todos os ingredientes da massa no liquidificador, bata bem até misturar e soltar bolhas e despeje com cuidado sobre as bananas. Asse em forno preaquecido a 200 graus por 35 minutos. Retire do forno e desenforme ainda quente sobre um prato.

Observação 1: Usei formas de teflon e o bolo se soltou rapidamente, apenas com a ajuda de uma faca para afastá-lo das paredes. Acho que não haveria problemas com uma forma de alumínio. De qualquer forma, o caramelo ainda quente ajuda a soltar.

Observação 2: Da próxima vez, tentarei fazer o caramelo direto no tabuleiro, untando com manteiga e açúcar. Meu caramelo passou um pouquinho do ponto e ficou um pouco duro, apesar de saboroso. Acho que vale experimentar uma alternativa mais segura!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ao amor e à comida



O dia dos namorados foi ontem e comemoramos com muitas calorias e vinho, como deve ser. Em casa. Como Belo Horizonte é o que é, sair de casa nesta data para um restaurante ou "algo mais" resulta impossível - ou pelo menos uma tremenda dor de cabeça. Então há algum tempo adotamos a celebração caseira.

Café da manhã com presentinhos, café forte, pão quentinho e panquecas. Poder enrolar na cama, fazer cafuné sem hora para acabar e tomar café com tempo livre e mesa posta é um luxo de poucos dias e, a meu ver, é melhor do que acordar em qualquer hotel cinco estrelas.

Para o almoço, nos demos conta de que, nesta onda de tentar escapar dos restaurantes lotados, comemoramos novamente com o mesmo casal do ano passado! O que não deixa de ser muito divertido! :)

Receber os "Buccini" com comida italiana é um grande desafio a que me propus, já que se trata de um casal bom de garfo e ele, descendente de italianos vorazes. Desde que voltei da Itália, superconfiante nas maravilhas que aprendi por lá, andava querendo convidá-los a mangiare - adoro um desafio deste tipo.

Ontem, então, casal Buccini chegou com duas garrafas de vinho argentino debaixo do braço e uma porção de quitutes, enquanto o tiramisù aguardava pela chuva de chocolate em pó, quieto e gordo na geladeira, e os ovos já estavam separados para uma carbonara.



Tortiglioni alla carbonara foi a primeira massa que provei em Roma. Lembro-me exatamente da sensação. Havia chegado de viagem na noite anterior, tomado chuva, sem almoçar direito. Tomei um chá com torradas, que era o que havia na casa da minha landlady, e fui dormir triste de fome, sem supermercado aberto nem um pacote de biscoitos na bolsa.

No dia seguinte, andei um bocado pela via dei Fori Imperiali, ainda com as mesmas torradas no estômago, até que finalmente encontrei um restaurante muito honesto e quentinho, naquele dia frio. Pedi uma sugestão para o garçom. Muito sério e confiante, ele disse apenas: "Carbonara", olhando firme nos meus olhos, a toalhinha pendurada no braço.

E então chegou aquele prato cremoso, levemente picante, com os tubinhos do tortiglione perfeitamente cozidos al dente e exalando a origem camponesa e simples que caracteriza este prato tão romano. Degustá-lo depois de tanto frio e de um vazio estomacal-quase-existencial foi como deitar em colo de mãe depois de uma nota baixa.

Achei que o Beto e os Buccini poderiam apreciar. No Brasil, porém, acabei utilizando o rigatone, um pouquinho mais largo, que foi o que encontrei sem precisar sair do bairro. Brindamos ao amor, à amizade e a todas estas coisas que alimentam nossa alma!

Tortiglioni alla carbonara

Ingredientes para 4 pessoas:

4 gemas de ovos
200 ml de creme de leite fresco
1/2 cebola ralada finamente
2 colheres de manteiga
200 grs. de bacon com pouca gordura, picado em cubinhos
3/4 xícara de um bom parmesão ralado (se encontrar Pecorino, ainda melhor, que é o utilizado na Itália)
500 grs. de tortiglioni ou rigatoni
Sal e pimenta do reino a gosto

Enquanto a água para a massa é fervida, refogue, em uma panela de bom tamanho, a manteiga, a cebola e o bacon, até que a cebola fique dourada e o bacon comece a secar. Desligue o fogo. Em uma tigela, incorpore o queijo e o creme de leite às gemas e tempere com sal e pimenta. Separe. Cozinhe o tortiglione al dente, escorra a água e, imediatamente, coloque-os na panela onde você fritou o bacon. Com o fogo desligado, acrescente o creme de ovos e misture bem, debaixo para cima. Apenas o calor da massa deve ser suficiente para incorporar esta mistura, pois os ovos podem cozinhar se você resolver levá-la ao fogo e aí a cremosidade se perde. Acrescente um pouco mais de queijo ralado a gosto e sirva.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Cookies for fun e o imaginário dos outros


Minha fascinação por cookies me recorda um pouco do depoimento de uma escritora nigeriana, Chimamanda Adichie, quando ela conta sobre os livros estrangeiros que lia na infância e que a faziam se questionar onde estariam aqueles cenários de neve, as torradas com pasta de amendoim, as crianças de cabelos claros e todo aquele contexto que não era seu.

Salvas as devidas diferenças, sinto-me um pouco assim com tantas coisas, e os cookies com leite me acalentam com a memória de uma infância em que, na realidade, nós comíamos mesmo biscoito de maizena, pão de queijo e rosquinhas Mabel.

Isto me faz lembrar também das revistinhas da Turma da Mônica - qual criança brasileira criada nas grandes cidades não sonhava com a existência de um "bairro do Limoeiro", onde era possível andar sozinho por aí fazendo planos mirabolantes e deparando com sorveteiros e amiguinhos a cada esquina?

O fato é que, de tanto sermos influenciados por imaginários alheios, fui também uma feliz vítima deste fenômeno e apaixonei-me por aquelas pequenas rodelas incrustadas de chocolate, de forma que o ato de encontrar cada gota com os dentes é de uma alegria pueril e sem igual para mim, já há muitos anos.

Saudosa deste sentimento e com um pacotinho de gotas de chocolate pacientemente aguardando uma brecha na minha agenda, dediquei-me à receita abaixo. Muito, muito fácil de fazer. Meus desejos da infância que não existiu foram plenamente satisfeitos por cerca de dois dias.

Cookies de chocolate e aveia (só para dar um toque "saudável")

1 xícara (140g) de farinha de trigo
½ xícara (45g) de aveia
½ colher (chá) de bicarbonato de sódio
1/4 colher (chá) de sal
150 gramas de chocolate ao leite picado grosseiramente
2 colheres (sopa) de manteiga sem sal (se não tiver, retire o sal dos ingredientes)
1 ½ xícaras (300g) de açúcar
2 ovos grandes
1 colher (chá) de baunilha
1 ½ xícaras de gotas de chocolate ou mais 150 gramas de chocolate ao leite picado em cubinhhos pequenos

Pré-aqueça o forno a 160ºC. Misture a farinha, a aveia, o bicarbonato e o sal em uma tigela e reserve. Derreta os 150g de chocolate picado grosseiramente com a manteiga em banho-maria (ou no microondas) e deixe esfriar ligeiramente. Coloque a mistura de chocolate na tigela da batedeira, junte o açúcar, os ovos e a baunilha e bata em velocidade média até combiná-los bem.

Desligue a batedeira e acrescente os ingredientes secos. Adicione os pedaços de chocolate, misturando-os à massa com uma colher de pau ou espátula.

Com o auxílio de uma colher de chá, coloque bolinhas da massa em assadeiras já untadas (com manteiga e farinha), deixando 4 cm de distância entre uma e outra.
Asse até que os cookies esparramem e as superfícies rachem, cerca de 20 minutos (os biscoitinhos ainda estarão moles). Deixe esfriar e guarde em potes ou latas herméticos por até 3 dias.

Rende cerca de quatro dúzias.

Observação: Estava pensando que é possível variar algumas combinações com esta receita. Em vez da aveia, pode-se colocar a mesma medida de nozes. Ou a mesma medida de chocolate em pó, se quiser um cookie de chocolate mais forte. Ou chocolate branco no lugar do chocolate ao leite. Muitas possibilidades para provar! :)

domingo, 24 de abril de 2011

Sábado de aleluia e bacalhau

Gosto de observar e refazer mentalmente os trajetos das pessoas e das situações, quando pessoas e situações improváveis, de repente, se encontram e, de repente, dá certo. No sábado de aleluia, família longe, sete pessoas de lugares distintos se reuniram ao acaso, em minha cozinha, de forma improvável, quando paramos para pensar de onde veio cada uma delas. E deu certo.

As cozinhas tem este poder. Mas mais do que as cozinhas, a vida. Imagine todo o trâmite e os tropeços e senões da vida, para que sete pessoas cheguem a uma cozinha, em um sábado de aleluia: Um casal de virginianos é apresentado por uma amiga em comum, que ela conheceu via Internet. Era apenas um nickname, dez anos atrás, e calhou de vir falar de astrologia em uma janelinha em particular.

Um outro casal se conheceu na rua, quando ele, de madrugada, sabe-se lá porquê, resolveu dar dois passos atrás e, encorajado pela bebida, abordar (gentilmente!) duas moças sentadas num café. E eles se gostaram.

Uma amiga que gosta de romances, gatos e vinhos foi apresentada à outra por uma terceira que, àquela hora, estava a cerca de 2.000 quilômetros de distância. E uma outra dupla se conhece por acaso, em uma festa, e de repente ela descobre que ele é pai de um cara que ela já conhecia de algum lugar, e que acaso foi este?, ele também gostava de boa literatura e boa comida.

Sete pessoas se reunem assim, vindas de toda parte, bebem, comem e se divertem, e este momento despretensioso apenas revela todo o intrincado caminho do destino ou do acaso, no que quer que você acredite. Sete pessoas se reunem em torno de um bacalhau, que também fez seu próprio caminho dos mares gelados da Noruega ao Porto de Portugal, onde, infelizmente, foi morto, salgado e embalado para ser exportado ao Brasil.

Assim comemos uma bacalhoada, eu, meu virginiano e mais cinco amigos celebrando nossa pequena Páscoa, com conversas em torno do fogão e vinhos alegres e gelados. O cardápio deste dia foi meio português, meio brasileiro, com uma salada refrescante de folhas e pera, uma bacalhoada que inaugurou a panela de pressão e, para sobremesa, sorvete de queijo com calda quente de goiaba.

Segue o passo-a-passo deste dia de encontros improváveis:

Para a salada, rasguei folhas de alface americana e radichio; acrescentei lascas de pera após pingar nelas algumas gotas de limão siciliano e, por fim, decorei com lascas de queijo parmesão e um fio de azeite.

Para a sobremesa, pensada de última hora, comprei um sorvete sabor queijo e servi com uma calda de goiaba quente. A calda você pode fazer com açúcar e goiaba, se estiver disposto a passar alguma horas em frente ao fogão. Como eu tinha um pouquinho de pressa, comprei uma geleia pronta e, com um pouco d´água, em uma pequena panela, modifiquei seu ponto em alguns minutos de fogo alto e a servi ainda quente, por cima do sorvete. Ficou bastante respeitável. :)

E à bacalhoada, como manda a receita portuguesa e um pouco de bom senso e conhecimentos gerais:

Bacalhoada

1 kg de bacalhau dessalgado
6 batatas em fatias grossas
1 pimentão verde em tiras
2 cebolas em rodelas finas
2 dentes de alho picados
3 tomates sem pele picados em cubos
100 grs. de azeitonas pretas sem caroço
Quanto baste de salsinha picada
Pimenta-do-reino, sal e azeite a gosto

Se o bacalhau for salgado, deixe-o de molho de um dia para o outro, trocando a água pelo menos quatro vezes. Ferva o bacalhau para facilitar a sua limpeza, retire as espinhas e corte-o em pedaços grandes. Numa panela de pressão, regue o fundo com azeite e faça camadas com os vegetais e temperos e os pedaços de bacalhau. Prove o bacalhau para verificar o sal e acerte neste momento. Regue com bastante azeite, feche a panela e acenda o fogo alto. Quando começar a apitar, abaixe o fogo e conte 15 minutos. Espere sair o vapor, abra a panela, coloque o conteúdo em um refratário, aproveitando apenas um pouco do caldo que se formou, para não ficar muito aguado. Coloque no forno por alguns minutos, apenas até dourar levemente as batatas, e sirva com arroz branco.

Esta medida serve cerca de seis pessoas.





terça-feira, 19 de abril de 2011

A feminilidade portuguesa no fado



Voltando de Portugal, sem sono para dormir as quase dez horas de voo, passei a ouvir um canal de fado na rádio TAP. Ouvi uma rodada de dez ou doze músicas, depois outra, e até tentei passar ao canal de jazz, mas de repente as canções choradas lusitanas me faziam falta aos ouvidos. Cheguei ao Brasil com uma listinha de nomes, todos de mulheres fadistas.

Eu não havia me dado conta, mas é claro que sucederia com o fado o que aconteceu com a bossa nova, os blues e o tango argentino - estão surgindo novos nomes e a música tradicional está se reinventando por novas gerações. Pessoalmente, o fado me parece ainda mais belo em vozes femininas, todas tão afinadas e cristalinas que provocam arrepios em quem escuta. E a nova geração não faz feio em relação à "mãe do fado", Amália Rodrigues.

Algumas das bravas mulheres que andam resgatando o fado em Portugal são Mariza, Carminho, Kátia Guerreiro e Mafalda Arnauth. Elas não só inovam nas composições como também nos instrumentos, que hoje incluem piano e contrabaixo, quando o fado original se valia apenas das guitarras como acompanhamento da voz.

Além disso, vários fadistas começaram a interpretar letras de escritores portugueses até então pouco relacionados com o fado. Uma linda música que conheci por acaso é "Os Meus Versos", interpretada por Kátia Guerreiro, que postei no vídeo acima. Sua letra é um soneto de Florbela Espanca, poetisa portuguesa do início do século XX.

"Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!"...


E um detalhe interessante: muitos cantores, como a moçambicana Mariza, são nascidos em ex-colônias portuguesas, tem formação musical eclética africana, espanhola ou brasileira e hoje encarnam a perfeita alma e melodia da antiga metrópole. Talvez por isto, por se abrigar também em terras ultramarítimas, o fado tenha se salvado. Uma vez li que a ditadura de Salazar perseguia os cantores e vetava versos dos mais inocentes. De qualquer forma, como dizem em Lisboa, o fado já estava escrito desde sempre nas intrincadas ruas da cidade e não haveria de sumir - para a nossa sorte!

*

Uma dica para quem vai a Lisboa e quer ouvir o fado: ignore os conselhos do concierge do seu hotel para os fados turísticos que eles costumam indicar a estrangeiros. Desça em frente ao Museu do Fado e adentre o bairro de Alfama por um beco chamado rua do Terreiro do Trigo. Naquelas vielas há diversas casas de fado, com três ou quatro mesas no máximo, boa comida a bons preços. O primeiro endereço logo no início do beco toca o famoso "fado vadio", em que garçons e copeiras se alternam entre a cozinha e o microfone. É encantador.